A transição da rotina das férias para o ambiente escolar pode gerar ansiedade nas crianças autistas, mas as famílias e educadores podem criar um contexto mais tranquilo para essa volta
Um recomeço que exige cuidado
As férias escolares representam uma pausa importante para as crianças. São momentos de descanso, descontração e, muitas vezes, de rotina mais flexível. Mas para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) esse período também pode gerar uma quebra na previsibilidade do dia a dia – algo que afeta diretamente seu bem-estar emocional e comportamental.
E quando as aulas retornam, é bastante comum que venham acompanhadas de alguns desafios como ansiedade, resistência, regressões e dificuldades de readaptação. Por isso, mais do que simplesmente “voltar à rotina”, é fundamental pensar em como tornar essa transição mais segura, compreensível e empática para a criança.
Entendendo a importância da previsibilidade
A previsibilidade é um dos pilares no cuidado com crianças autistas. Saber o que vai acontecer, quando e como, traz sensação de controle e segurança e, consequentemente, ajuda a reduzir o estresse, as crises e as desregulações de sensações.
Durante as férias, por mais que alguns hábitos sejam mantidos justamente para manter a ideia da previsibilidade, a estrutura do dia costuma ser mais livre. Com a aproximação do retorno às aulas, é fundamental reintroduzir, de maneira gradual, elementos da rotina escolar como:
- Horário para acordar e dormir;
- Tempo de atividades estruturadas;
- Uso de mochilas ou uniformes;
- Contato visual com materiais escolares ou imagens da escola.
Esse processo não precisa ser rígido, mas, sim, planejado com empatia – e com a participação ativa da criança, sempre que possível.
Dicas práticas para tornar esse momento mais tranquilo
Algumas estratégias podem fazer grande diferença na volta às aulas de crianças com TEA como:
- Preparação gradual: comece a conversar com a criança com antecedência sobre a volta às aulas. Use recursos visuais, calendários ilustrados e vídeos que ajudem a explicar o que vai acontecer;
- Reconexão com o ambiente escolar: visitas à escola antes do retorno oficial, passeios pelo pátio, reencontros breves com professores ou colegas podem ajudar a familiarizar novamente a criança com esse espaço;
- Comunicação ativa entre escola e família: compartilhe com a escola as estratégias que funcionam em casa, os sinais de alerta e formas eficazes de acolher a criança. Uma parceria bem alinhada favorece a adaptação;
- Apoio profissional especializado: o suporte de uma equipe multidisciplinar é essencial para crianças neurodivergentes que estão em processo de readaptação. O acompanhamento terapêutico pode ajudar a antecipar possíveis dificuldades, orientar a família e fortalecer as habilidades emocionais e de sociabilização da criança.
Cada criança tem seu tempo e merece respeito nesse processo
É sempre necessário lembrar que a adaptação escolar não acontece da mesma forma para todas as crianças. Algumas podem se sentir seguras logo nos primeiros dias, enquanto outras precisarão de semanas ou até meses para se sentirem confortáveis.
O mais importante é que a volta às aulas seja vista como uma jornada conjunta de acolhimento, cuidado e respeito ao tempo e à individualidade de cada criança.
Voltar à escola pode (e deve) ser uma experiência positiva
Com atenção e planejamento, o retorno das crianças autistas à escola pode se tornar uma experiência positiva e enriquecedora.
Mais do que marcar o fim das férias, esse momento pode ser uma nova jornada de desenvolvimento, descobertas e fortalecimento de vínculos, tanto dentro quanto fora da sala de aula.